sábado, 29 de março de 2014

Até que ele morra

Até que ele morra

Era ainda menino e já havia tomado consciência da injustiça do mundo. Um tio materno impingiu-lhe uma lavagem cerebral, creditando todo o mal da humanidade às vísceras do capitalismo. Apoiou-se num daqueles credos socialistas que professavam a socialização de tudo, até mesmo dos mimos familiares. Desde então, não hesitava em pensar que seus brinquedos e roupas deveriam ter o destino inevitável das chamadas classes subalternas. Como o tio era exagerado, falava em lumpemproletariado. O moleque morria de pena. Pois é, o raciocínio era simplista, mas funcionava. Privava-se do pouco que lhe ofereciam, era realmente pródigo em doações.

Ainda imberbe, foi cooptado pelo Partidão. Disseram-lhe que o mundo se dividia entre os filiados e os demais seres humanos, órfãos da dignidade partidária. Fez política estudantil no segundo grau e na faculdade. Sua militância era fervorosa: participava de congressos e discussões, acampava com a pastoral, participava de distribuição de merenda e o escambau. Lia tudo quanto podia. Marx, Engels, Lenin, Gramsci e Rosa eram citados com familiaridade ímpar, de dar inveja aos mais tradicionais quadros do Partidão e aos intelectuais de carreira.

Vinte anos depois, estava casado, era pai e tinha emprego fixo sem nenhuma ligação política. Pouco a pouco, foi se tornando amargo, descrente. Já não queria saber de laços partidários, não falava com companheiros da antiga militância. Queria apagar o passado, a cerveja quente das reuniões com pretextos socialistas, a fiscalização ideológica e a repreensão aos quadros pelegos da política. Agora, tudo lhe parecia produto de dissabores, de uma história sem sentido. Mas, no fundo...

No fundo, em algum recôndito intocável e quase invisível, ainda sonhava com a economia planificada, a ordem social igualitária. Ao tomar conhecimento do ataque ao World Trade Center, deu um risinho de esguelha. A tal convulsão social mencionada pelo velho barbudo no Prefácio para Crítica da Economia Política (ele sabia até a página da edição) irromperia no centro do capitalismo. Teria chegado a hora? Enfim, os proletários de todo o mundo iriam se unir. Bin Laden? Fundamentalismo? Ora, aquilo não existia. O ataque foi produto de algum gênio do Kremlim. “A revolução! A revolução!”, sussurrava para si enquanto ouvia mentalmente os acordes iniciais da Internacional Socialista.

Quando anunciaram a nova crise das bolsas de investimento, teve o último sopro de esperança. Wall Street seria o sinônimo da ruída tão aguardada. Qual o quê!

Hoje, o mundo continua injusto e ele, já conformado, sabe que isso não vai mudar. Pelo menos, até que ele morra.




2 comentários:

Thiago Gomes da Silva disse...

Professor, pensei que tinha parado! Ótimo texto, parabéns!

Antonio Ozaí da Silva disse...

Boa tarde!
É instigante e divertido ler seus textos. Além de escrever bem, vc mantém o bom-humor que contagia o leitor.

Obrigado e parabéns!
Abraços e tudo e bom