sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Terceira opção

Terceira opção - Roberto Barbato Jr

A terceira opção é pouco provável e talvez não passe mesmo de um sopro de esperança. Como o momento da transcendência deve ser precedido pela  narrativa da vida pretérita, pintemos um quadro animador. Afinal de contas, sonhar é gratuito e, a rigor, não faz mal nenhum.

Durante toda a minha vida, não houve um momento sequer de privação material. Sempre tive o que queria. Para mim, querer era poder. Em virtude disso, não precisei trabalhar arduamente. Como filho de uma família aristocrata e muito abastada, entendi, desde cedo, que fazer firula era um meio de vida. Apenas para não ficar desagradável aos olhos dos menos afortunados, fingia lograr algum tipo de atividade laborativa. Isso mesmo, simular o trabalho era quase uma necessidade para privar de algumas companhias que me apeteciam. Mera forma de socialização. 

Sabe-se que o dinheiro não compra felicidade e, bem ao contrário do que dizem por aí, não manda buscá-la. É certo que também é incapaz de adquirir saúde. Mas que ajuda, isso ajuda. O meu caso é exemplar. Fiz esportes, alimentei-me bem, dormi a contento e pude desfrutar de excelente orientação médica. Nunca fumei, não usei drogas e quando ousei beber, era apenas para degustar, com parcimônia, o sabor de algum vinho. A genética, componente fundamental desse processo virtuoso, sempre me foi favorável. Hoje, com a idade já avançada, não tive nenhum diagnóstico de qualquer doença degenerativa, nenhuma ocorrência de neoplasia e tampouco adversidades de ordem cardíaca. Minha lucidez é constantemente aprovada pelos meus netos. Eles adoram me testar.

Como este relato vai remanescendo enfadonho, resolvo encerrá-lo, não sem antes assinalar que amei, constante e intensamente. Construí família digna de inveja. Uma prole unida, sem desvios ou qualquer tipo de desventura significativa.

Agora, cabe-me apenas projetar o que virá. Numa tarde de sexta-feira, em pleno outono, estarei na sala de casa. Será um cômodo bem asseado, com acústica ímpar. Quase deitado no sofá, após sorver uma taça de tinto e degustar um Monte Cristo, ficarei, uma vez mais, encantado com a melodia da música que estará grassando pelo infinito, sem nenhuma interferência. Ao meu lado, aberto no capítulo do Paraíso, repousará um exemplar da Divina Comédia. Beatriz estará ali para conduzir Dante, tal como desejei que me acontecesse na primeira opção.

Já em estado de torpor, algum desconforto anestesiado irromperá subitamente dentro de mim. Com a placidez de quem realmente merece descanso sem sofrimento, tombarei a cabeça para o lado. Meu corpo aguardará estático e rijo até que alguém tenha ciência do meu fim.

Em tempo: é óbvio que esta narrativa padece de um sério problema: a omissão da música que estará tocando no momento da partida. Deixarei uma lista aqui na próxima semana. Mas, desde já, aguardo sugestões.


Um comentário:

Thiago Gomes da Silva disse...

Tem que ta tocando "My Way" do Sinatra, ou "Beatriz" do Circo Mistico!